O Feminino nas Águas: saberes e conexões

Na segunda-feira, 25 de agosto de 2025, Belém recebeu a primeira edição do workshop “O Feminino nas Águas: saberes e conexões”. Um evento dedicado à relação entre as mulheres da Amazônia e os saberes ligados ao uso dos recursos hídricos. 

Organizado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Institut de Recherche pour le Développement (IRD) e Embaixada da França no Brasil, no âmbito do projeto FEFACCION, o evento foi coordenado por Silvana Veloso, especialista em qualidade da água e professora da UFRA. 

Dividido em oito sessões distintas, o workshop reuniu cerca de 80 pessoas em torno da temática feminina e hídrica na bacia amazônica. As discussões abordaram os seguintes temas: 

  • Mística das águas: a relação cultural e simbólica da mulher com a água - Amanda Vicentini, PUC Paraná 
  • Pesquisadoras e ribeirinhas: troca de saberes sobre a água - Valdenira Ferreira dos Santos, IEPA, Macapá 
  • O protagonismo da mulher na gestão das águas - Verônica Bitencourt, SEMAS 
  • Mesa-redonda / moderadora: Ana Lídia Cardoso do Nascimento, UFRA  – Sociedade civil e movimentos sociais femininos: o poder das águas e suas influências 
  • Saneamento, tecnologias sociais e mulheres - Vania Neu, UFRA 
  • A mulher e a água num campo de refugiados africanos e no sertão de Pernambuco - Andréa Carneiro, UFPE, Recife 
  • Papel das mulheres nos Comitês de Bacias - Bárbara Vilches, prefeita de Presidente Venceslau (SP), presidenta do Comitê de Bacia do Pontal do Paranapanema 
  • Mesa-redonda / moderadora: Aline Meiguins, UFPA → Atuação das instituições públicas na gestão das águas 

O workshop foi aberto com um resumo sobre o papel da mulher na sociedade, em especial da mulher amazônica, a partir de sua relação com a água. Nesta região, a água possui uma forte dimensão simbólica, representando uma forma de proteção da natureza, mas também uma ideia de passagem e de transição. Seu valor vital, cultural e ambiental convida a pensar a água tanto como elemento intrínseco aos habitantes da Amazônia, quanto como um desafio contemporâneo multissetorial. 

A partir de uma abordagem socio-hidrológica, Valdenira Ferreira dos Santos, do Instituto de Pesquisa de Macapá (IEPA), lembrou que os recursos hídricos da região amazônica são fortemente afetados pelos efeitos das mudanças climáticas e que seu uso cotidiano está diretamente ameaçado. As comunidades indígenas e quilombolas, representadas especialmente por Carlene Printes, sentem essas consequências. Com efeito, a água continua sendo essencial no dia a dia dessas populações: lazer, alimentação, limpeza, práticas culturais, etc. No entanto, a degradação de sua qualidade, o assoreamento dos cursos d’água, a poluição dos rios e a perda das áreas de pesca provocam profundo sofrimento. Essas ameaças também comprometem a transmissão de saberes e práticas culturais ligadas à água. 

As iniciativas científicas, como as propostas pelo Observatório Popular do Mar (Omara), contribuem para desenvolver a participação coletiva diante dos desafios relacionados à água. Essa estrutura incentiva as mulheres do estuário do Amazonas a se engajarem no monitoramento comunitário do mar, inserindo-se assim em uma perspectiva de “ciência cidadã”. 

O workshop destacou a necessidade de instaurar um modelo mais inclusivo e sustentável de gestão e valorização dos recursos hídricos, sobretudo nas comunidades em que a água e as mulheres ocupam um lugar simbólico central. Essa reflexão se alinha diretamente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 5 e 6 adotados pela ONU, relativos à igualdade de gênero e à gestão sustentável da água. 

Este primeiro workshop abre assim o caminho para uma reflexão coletiva em que mulheres e água aparecem como protagonistas indissociáveis do futuro amazônico. 

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